Aportes de R$ 500 mi em solar estão parados

11 de July de 2013

SÃO PAULO – Quase R$ 500 milhões em investimentos anunciados para este ano na fabricação local de painéis fotovoltaicos aguardam aumento da demanda brasileira pelo produto para serem realizados. Única fabricante já instalada no País, a brasileira Tecnometal amarga ociosidade de quase 90% em sua planta em Campinas (SP). Ainda assim, a espanhola Isofoton, a portuguesa ViV Energia Renovável, as italianas Real Solar e Astra e a também brasileira Brasil Solair fazem planos que somam aportes de cerca de R$ 496 milhões.
O governo federal vê na emergência de uma cadeia produtiva a condição para a competitividade da fonte solar na matriz brasileira. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a energia fotovoltaica deve custar R$ 165 por megawatt hora (MWh) em 2018, 45% menos do que o preço atual, com a produção local de painéis.
Como estímulo à demanda, o MME aposta na regulamentação da geração distribuída (Resolução 482 de 2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel) e na inclusão da fonte solar pela primeira vez em um leilão de energia, previsto para outubro de 2013 – conforme anunciou o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. No entanto, o governo descarta outros incentivos à solar, alegando que o apoio a uma fonte ainda cara iria em sentido contrário ao esforço para redução da tarifa, pela MP 579.
Os empresários avaliam que a previsão de taxação para geração distribuída (estabelecida pelo Convênio ICMS 6, de abril de 2013, do Conselho Nacional de Política Fazendária – Confaz), o curto prazo para entrega de energia no leilão – de três anos -, e a falta de linhas de financiamento para a fonte ainda são entraves ao aguardado avanço do setor.
Novos investimentos
A espanhola Isofoton planeja investir ao todo R$ 200 milhões no município de Sobral, no Ceará. O valor inclui uma fábrica de painéis e, num segundo momento, uma de células. “A primeira parte do investimento será feita com recursos próprios, depois buscaremos recursos junto ao Banco do Nordeste do Brasil”, conta Aécio Gonçalves, diretor-executivo da Pentagonal, empresa que presta consultoria para a fabricante.
A produção deve iniciar com ao menos 60% de componentes nacionais e células trazidas da Espanha. “Esperamos em seis meses estar montando e vendendo aqui no Brasil”, diz. A empresa já conta com uma instalação provisória e aguarda doação de terreno pela prefeitura para as instalações definitivas. “A capacidade inicial prevista é de 50 MW, mas a ideia é chegar a 100 MW por ano.”
Tendo anunciado em 2010 a intenção de construir uma fábrica de painéis fotovoltaicos na Bahia, a portuguesa ViV Energia Renovável afirma continuar preparada para investir. “O projeto está em curso, está tudo preparado, temos o terreno, só que o mercado no Brasil ainda não justifica investimento desta natureza”, afirma o diretor, Licínio Lima.
Segundo ele, o plano da empresa, que hoje importa painéis da Europa, é começar a produzir ainda este ano. “Começaremos importando células e vidros, mas estamos em contato com fabricantes nacionais de vidro, para ver se eles se interessam por esse segmento”, diz. O investimento previsto é de R$ 15 milhões, para uma produção inicial de 15 MW, que poderá ser dobrada ou triplicada num segundo momento, segundo Lima. A fábrica deve ser instalada no município de Entre Rios, a 150 km de Salvador.
Outros investimentos, confirmados pelo coordenador de desenvolvimento energético da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte, José Mario Gurgel, são das italianas Real Solar e Astra.
“Estão no processo de constituir empresa, regularizar licença, mas já têm doação do terreno, estão num processo adiantado. Creio que, no segundo semestre, pelo menos alguma delas já começa a efetuar o investimento”, afirma Gurgel. Os aportes foram anunciados, em 2012 e 2013, em R$ 102 milhões e R$ 160 milhões, respectivamente, para a produção de 240 MW e 50 MW de painéis.
A brasileira Brasil Solair firmou, em dezembro de 2012, protocolo de intenções com o governo da Paraíba para aporte de R$ 19 milhões. “O que posso confirmar é que a fábrica será inaugurada até o fim do ano”, informou a assessoria de imprensa da empresa, cujo porta-voz estava em viagem e não pôde dar entrevista.
Pioneirismo
Com capital “100% nacional”, a Tecnometal iniciou no primeiro trimestre de 2012 a produção em sua fábrica de painéis fotovoltaicos no interior paulista, “por uma decisão mais estratégica do que econômica”, segundo o diretor de negócios da divisão de energias renováveis, Renato Mangussi.
“Foi uma busca por diversificação no negócio. Como a empresa não tinha nenhum envolvimento na área de energia, ela decidiu, mais por uma opção estratégica, do que econômica, investir na instalação de uma fábrica para produção de painéis, com o objetivo de partir na frente”, relata.
Realizado investimento de R$ 20 milhões na planta produtiva, a demanda projetada ainda não veio. “Poderíamos operar em três turnos, mas estamos operando parcialmente em um. A capacidade instalada varia de 20 a 25 MW em painéis por ano. Mas hoje a demanda é na ordem de 2 a 3 MW por ano”, diz. A empresa trabalha com 60% de componentes nacionais, importando células, vidros e alguns filmes plásticos.
Mangussi cita a resolução do Confaz e a falta de financiamento como barreiras à geração distribuída, a serem superadas para o amadurecimento da cadeia produtiva local. Para o diretor, a micro e minigeração por pessoas jurídicas criará a principal demanda para o setor, e não a geração centralizada, voltada ao fornecimento ao Sistema Interligado Nacional (SIN), através de leilões.
Com cerca de 90% de ociosidade na planta, e frente ao cenário de sobreoferta mundial de painéis de origem asiática, o diretor vê com ceticismo os anúncios de investimento das novas pretendentes ao mercado nacional. “Na nossa visão, não tem espaço para outra empresa, mas seria bom, para ajudar a lutar pelo apoio necessário para o desenvolvimento da indústria no Brasil”, acredita.

Fonte: Diário Comércio Indústria & Serviços